Abriu a porta calmamente e caminhou até o sofá, deixo-se cair, cansado, um dia duro. A mulher apenas deu boa noite, passou pela sala e foi em direção ao quarto. Lá de dentro ela murmurou algo sobre o jantar. Já era assim há alguns anos, sem-sentido, apenas levando nas aparências.
No trabalho não era muito diferente, a única coisa que fez na vida foi passar naquele concurso público, depois se acomodou, alternava entre assistir ao Domingo Legal e ver jogos do seu time local. Às vezes saia da rotina, visitando a sogra, a mãe, ou saindo com o pessoal do trabalho, mas até isso já tinha aquele ar repetitivo dos anos.
O que pensar, nunca havia feito nada que realmente sentisse vontade, morou sempre na mesma cidade, viajou poucas vezes, e sempre amarrado, preso. Deixou de ler, de ouvir música, de virar noites escrevendo, pensando, debatendo com os amigos, deixou de amar, a esposa, o trabalho, a vida, a si próprio.
Mas aquele dia era diferente, decidiu que iria recomeçar, que ainda era jovem, e que tudo poderia mudar.
Foi na cozinha, esquentou o jantar no microondas, comeu com a mesma calma com a qual chegou. Depois, saiu pé sobre pé de casa, sabia que a esposa adormecera profundamente.
Lá estava ele, estrada, destino: SUL, mais preciso do que isso, quem poderia saber, nem ele mesmo.
Levava consigo apenas algumas trocas de roupa, e uma pequena mochila onde guardava as economias de uma vida, pouco menos de 50.000 reais.
Recomeçar.
Para a esposa deixou apenas um bilhete:
“Hoje eu me libertei! Espero que seja feliz, e faça o mesmo.”
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Pode parecer que essa história não tem nada à ver, mas poderia ser a minha, muitas vezes eu me vi nesse caminho, e muitas vezes lutei para sair dele.
Eu recomeçei sim, mas muito antes do que poderia imaginar, e pensando por esse lado, ainda bem!
Acho que 2007 foi mais revelador do que eu poderia sequer imaginar, 20 anos de vida, um belo número, inesquecível, muitos dizem que é nessa fase que a nossa vida realmente começa, é difícil aplicar regras gerais quando se trata de ser humano, mas é isso.